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sábado, 4 de abril de 2015

Nicolas Flamel

Nicolas Flamel nasceu em 1330 em Pontoise. Após a morte de seus pais, ainda jovem foi trabalhar em  Paris como escrivão. Tudo indica que até esta época Flamel ainda não se interessava pela Alquimia mas, segundo relato seu, certa noite ele teve um sonho em que um anjo segurava um grande livro com capa de cobre, do qual lhe mostrou a página de guarda e disse: "Flamel, olha bem para este livro, não percebes nada do que ele contém, nem tu nem muitos outros, mas um dia verás nele o que ninguém seria capaz de ver."
O sonho se acabou aí mas não saiu da lembrança de Flamel, até que um dia ele se viu na presença do tal livro, que, por força de seu ofício, havia adquirido de alguém, como ele mesmo narra na sua obra Explicação das Figuras Hieroglíficas, ou O Livro das Figuras Hieroglíficas: "Pois eu, Nicholas Flamel, escrivão, logo que, após a morte dos meus pais, comecei a ganhar a vida com a nossa arte da escrita, fazendo inventários, pondo contas em ordem e suspendendo as despesas dos tutores de menores, veio cair-me nas mãos, pela soma de dois florins, um livro dourado muito velho e bastante grande; não era de papel ou de pergaminho, como são os outros, mas era feito apenas de delgadas cascas (segundo me parecia) de arbustos tenros.
A capa era de cobre muito fino toda gravada com letras ou figuras estranhas e, em minha opinião, creio que podia muito bem tratar-se de caracteres gregos , ou de uma outra língua antiga semelhante. Tanto assim que eu não era capaz de as ler e que sabia muito bem que não eram sinais ou letras latinas ou gaulesas, pois nós, disso percebemos um pouco. Quanto ao interior, as suas folhas de casca estavam gravadas e escritas com grande habilidade, com uma ponta de ferro, em belas e nítidas letras latinas coloridas.
Continha três vezes sete folhas (pois estas encontravam-se assim numeradas no alto da folha), a sétima das quais nunca estava escrita, e, em vez disso, tinha pintadas uma vara e serpentes a devorarem-se; na sétima folha a seguir, uma cruz em que uma serpente estava crucificada; e na última destas sétimas folhas estavam pintados desertos no meio dos quais brotavam fontes belíssimas, de onde saiam muitas serpentes que corriam por aqui e por ali.
Na primeira folha estava escrito, em grandes letras maiúsculas douradas: ABRAÃO O JUDEU, PRÍNCIPE, PADRE, LEVITA, ASTRÓLOGO E FILÓSOFO AO POVO DOS JUDEUS OU DISPERSOS PELA IRA DE DEUS NAS GÁLIAS, SALVE D. I. Depois disto, encontrava-se cheio de grandes blasfêmias e maldições (com a palavra MARANATHA, que estava repetida muitas vezes) contra toda a pessoa que pusesse os olhos nesse livro se não fosse sacrificante ou escrivão."
Achou  muito intrigante o livro e passou a estudá-lo, descobrindo que se tratava de cabala e alquimia. Nesta  época, ele nem sabia o que realmente significava a alquimia. Estudou anos a fio e descobriu que o  livro relatava diretamente a Grande Obra, sem contudo indicar a matéria-prima.
Casou-se com Dame Perrenelle, que era viúva, por volta de 1364 e a partir de então consegue uma  pequena quantia de dinheiro para se dedicar totalmente a alquimia, quantia esta que a viúva havia  herdado do falecido marido. Percorre o caminho de Santiago de Compostela, padroeiro dos alquimistas, e encontra um mestre que lhe passa ensinamentos sobre a matéria-prima.
Flamel, a partir  de 1380, começa a se dedicar a experimentos alquímicos, consegue produzir prata em torno de 1382 e depois finalmente a transmutação em ouro. Cerca de dez anos mais tarde ao início dos experimentos, começa a realizar um grande número de obras de caridade como a construção de hospitais, igrejas, abrigos e cemitérios e os descora com pinturas e esculturas contendo símbolos alquímicos. 
Flamel, apesar de sua súbita fortuna, possuía uma modesta residência e usava roupas humildes. Mas suas vultuosas doações levantaram suspeitas do rei Carlos V que havia proibido, jáem 1379, todas as  práticas alquímicas mandando inclusive, destruir todos os laboratórios que supostamente fabricasse  ouro alquímico. O rei enviou o chefe das finanças para investigar a origem de sua fortuna. Acredita-se que Flamel tenha sido franco com o emissário do rei, tendo inclusive lhe dado um pouco da pedra  filosofal. Este voltou sensibilizado com dignidade de Flamel, nada relatando ao rei e durante muitas  gerações a pedra ficou guardada em sua família.

Escreveu "O Livro das Figuras Hieroglíficas" em 1399, "O Sumário Filosófico" em 1409 e "Saltério  Químico" em 1414 .

Relatos mencionam que o casal, aos 60 anos de idade, possuía um aspecto jovem não condizente com  as pessoas da mesma faixa etária da época. Flamel faleceu em 1417, porém alguns viajantes relatam  terem o encontrado no oriente com sua esposa , após sua suposta morte. Ele teria sido um ser  iluminado que quis viver entre os homens.

Acredita-se que todo o relato de Flamel desde o encontro do livro até  a peregrinação a Santiago de  Compostela e seu encontro com o mestre são alegorias para explicar a matéria-prima e o conhecimento adquirido através do estudo da alquimia. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Breve história da alquimia

BREVE HISTÓRIA DA ALQUIMIA

Há quase 2000 anos, um grupo de pessoas chamadas “alquimistas” arriscaram suas vidas tentando fabricar ouro. Porém, até os dias de hoje não se sabe se o que eles buscavam era realmente ouro ou se tudo era apenas um pretexto para ocultar sua busca por algo maior. Mistérios abundam acerca da obscura história da alquimia. Apresentamos a seguir uma breve síntese dessa história.

Desde o início da humanidade, o trabalho com os metais só foi possível graças ao domínio do fogo. No Egito e na China, a metalurgia era associada a uma arte espiritual. As etapas para a fabricação de utensílios e ferramentas com metais estavam relacionadas a práticas ligadas ao sacerdócio. Assim nasceu a alquimia, uma atividade deliberadamente concebida para não ser compreendida pelo povo. Considerava-se então que só os escolhidos por Deus, os realmente puros e os capazes de decifrar seu simbolismo, podiam deter este conhecimento.

A partir do século III estes princípios começaram a ser divulgados entre grupos cristãos, em Alexandria e Bizâncio, e principalmente entre os muçulmanos. Surgiu nesta época o conceito da “pedra filosofal”, um enigma com o qual se acreditava ser possível transformar mercúrio ou chumbo em ouro. Os alquimistas trabalhavam para encontrar a pedra filosofal com base em manuscritos antigos e fórmulas secretas místicas que eram em parte metalurgia, em parte mitologia. Porém, interpretar estes manuscritos não parecia fácil. Os livros que tratavam deste assunto escondiam os segredos da transformação dos metais em meio a metáforas indecifráveis e misteriosas imagens que até hoje são consideradas bizarras, grotescas ou mesmo eróticas.

Alquimia na Europa

Foi só a partir do século X que a alquimia conseguiu chegar à Europa ocidental cristã, por meio dos muçulmanos, seguindo o caminho anteriormente trilhado pela filosofia clássica helênica. A partir dali, a alquimia passaria a fazer parte dos mais importantes aspectos da cultura medieval européia. Porém, em 1317, a prática foi proibida pelo Papa João XXII, sob a acusação de bruxaria. Assim sendo, se entravam no laboratório do alquimista e cheiravam a enxofre, não havia dúvida de que “o demônio estava presente”. Por esta razão, muitos alquimistas foram mortos na fogueira. Ainda que fosse arriscado, muitos deles continuaram com seus experimentos alquímicos em segredo, manipulando principalmente mercúrio e enxofre, substâncias usadas também para a fabricação de detonadores e pólvora. Se os alquimistas vertessem estas substâncias no momento errado, podiam voar pelos ares o forno, o alquimista e o laboratório inteiro – o que acontecia frequentemente naquela época.

No início do século XVI, a era do Renascimento colocava fim ao antigo mundo medieval dominado pela igreja. Iniciava-se então uma era dourada para a alquimia, que saía à luz. Era pensamento freqüente desta época que todos os nobres da Europa deveriam ter um alquimista em suas cortes. Pelo atrativo de viver às custas dos nobres, a alquimia virou a profissão mais popular e também a fraude mais habitual daquela época. Na maioria dos casos, os falsos alquimistas eram enforcados por charlatanismo. No entanto, há registros de transformações reais, provavelmente porque foram desenvolvidas muitas ligas maleáveis de aparência dourada e que não se corroíam, e que por isso teriam passado por ouro.

Um alquimista notável deste período foi Paracelso, que se fez famoso e respeitado por manipular quimicamente metais que usava para tratar doenças que os métodos tradicionais não tinham conseguido remediar, e que eram atribuídas a castigos divinos ou superstições. Outro personagem famoso até os dias de hoje por suas três leis da mecânica clássica, Sir Isaac Newton também era secretamente apaixonado pela alquimia. Este interesse lhe trouxe problemas de saúde quando, aos 51 anos de idade, foi atestado que sofria de delírios paranóicos pela constante exposição ao mercúrio – motivo pelo qual teve de abandonar suas práticas alquímicas. Após sua recuperação, já nos últimos anos de vida, confessou que sentia saudade da alquimia e que, se fosse mais jovem, a praticaria novamente. Mas os tempos estavam mudando: na Europa do final do século XVIII os cientistas respeitados já não acreditavam mais nesta prática.

Uma nova abordagem

Depois de séculos fascinando os principais cérebros de Europa, a alquimia perdeu-se no tempo, e já parecia se encaminhar para a sucata da história. No entanto, no início do século XX surgiu novamente o interesse pela antiga arte, porém de uma forma inusitada. Um dos estudiosos mais notáveis de Europa, o psicólogo sueco Carl Gustav Jung, antigo discípulo de Sigmund Freud, declarou que seus pacientes viam imagens misteriosas em seus sonhos. Aquelas imagens não tinham nenhuma relação com a vida pessoal dos pacientes, mas sim com símbolos medievais alquímicos. Jung estava convencido de que as imagens eram mensagens de cura física provenientes do inconsciente do ser humano. Jung dedicou sua vida a desenvolver sua nova interpretação da alquimia como uma escola secreta de psicoterapia sagrada. Acredita-se que seus discípulos continuem este trabalho até hoje.

Assim, em pleno século XXI e por mais paradoxal que pareça, uma grande variedade de linhas influenciadas pela alquimia continuam surgindo. Dentre estas linhas se destacam as que utilizam os princípios da alquimia para fins medicinais, empregando metais, cristais, óleos, essências, ervas e florais. Já outras trabalham com o lado mais terapêutico, embasadas na correspondência entre os princípios alquímicos e a psique humana. Existem também artistas que encontram nas lendas e gravuras alquímicas sua fonte de inspiração para a criação de obras literárias, músicas, pinturas e, atualmente, filmes, desenhos animados e mesmo jogos de videogame.

A busca do alquimista sempre foi a busca do ser humano por sua própria pedra filosofal interior – ou seja, aquilo que o aproxima mais da perfeição, por meio da sabedoria, da compaixão e da liberdade. É por isso que, por mais que o tempo passe, a alquimia sempre voltará de diferentes formas para fazer lembrar ao ser humano sua conexão com algo maior do que sua existência material.

 O Piroalquimista, 2009